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Blog de Ricardo Noblat: colunista do jornal O Globo com notícias sobre política direto de Brasília –

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Bigodes de molho

A voz rouca do presidente Lula faz, na democracia, o que nem os generais da ditadura conseguiam: submete a política à sua vontade imperial, indiscutível, irrevogável. Aloísio Mercadante que o diga.

Contra a maioria indócil do PT, Lula tirou do bolso o nome de sua candidata à sucessão, Dilma Rousseff, sem tradição e sem história dentro do petismo. Para fortalecer a musculatura de uma economista que jamais disputou uma eleição, Lula subverteu todas as regras da ética política para empurrar, goela abaixo de um PT cada vez mais amorfo e submisso, o apoio do maior partido do país, o PMDB.

A aproximação com nomes que antes arrepiavam os petistas e o próprio Lula, como José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá, Jader Barbalho, Fernando Collor e outros menos notórios, antes era feita em nome da governabilidade que tudo justificava – até o sacrifício de idéias e princípios caros ao velho PT de guerra.

Agora, a rendição do Planalto é feita em nome de interesses jurássicos da política: a viabilidade eleitoral, que tudo explica e desculpa. Sem o PMDB, alega Lula, nenhum projeto de poder se viabiliza. Ainda mais para um enigma eleitoral chamado Dilma, que precisa vencer vários obstáculos: o noviciado, o temperamento, a credibilidade da própria palavra, a maturação do PAC, a estagnação nas pesquisas e o incômodo de um linfoma que sobrevoa o Planalto como o fantasma de Lina Vieira.

Neste processo, ninguém vive momento mais aflito do que o líder do PT no Senado, Aloísio Mercadante, personagem principal de um dos episódios de humilhação pública mais retumbantes da história política. Moderno, anunciou pelo twitter sua decisão ‘irrevogável’ de renunciar à liderança, em protesto pelo arquivamento das denúncias contra Sarney imposto, em tom de chantagem, pelo PMDB. Horas depois de um dura conversa com o dono da voz e do bigode do PT, Mercadante revogou sua renúncia. Recebeu de volta, pelo mesmo twitter, um tsunami de desaforos de gente que ainda duvidava do abismo aonde podem cair os políticos brasileiros.

O metalúrgico que se ufana de não ter estudado, que detesta jornais e boceja ao pegar um livro acabou por vexar, com todas as vogais e consoantes, um economista formado pela USP, mestre pela Unicamp e professor licenciado da PUC paulista. Dono da maior votação individual da história brasileira (10,4 milhões de votos para senador por São Paulo em 2002), Mercadante agachou-se de tal forma diante de Lula que comprometeu sua chance de reeleição em 2010, tal a repulsa popular que abala sua imagem com a força de um terremoto devastador.

Com a precisão de um sismógrafo, o economista Cristovam Buarque tracejou, próximo ao epicentro, o futuro imediato de Mercadante: "Ele será um líder sonâmbulo a partir de agora". Cirúrgico, Cristovam identificou o estranho processo que afeta a visão do partido governista: "O PT não olha mais para o Lula como um líder político, mas como um deus". O senador do PDT explicou que "a transformação de um líder em um deus ou semideus é um passo rumo à tragédia na sua biografia e também na História do país". Cristovam detalhou o seu temor: "É muito rápida a transformação de um deus em ditador. Às vezes há ditadores que não precisam usar armas, basta usar as cartas". O senador parece ter razão. Ninguém mais dá tantas cartas quanto Lula.

Dilma, por ordem de Lula, veio a público defender Sarney dos que tentam "demonizá-lo". Ricardo Berzoini, por decisão de Lula, enquadrou a bancada do PT na absolvição irrestrita de Sarney. Mercadante, por imposição de Lula, apequenou-se para revogar uma decisão que não valia um único fio de seu valente bigode. O Senado e a Câmara dos Deputados há dois mandatos, por vontade soberana do chefe do poder ao lado, engolem toda e qualquer medida provisória que brota do Planalto. Sem que ninguém percebesse ou reclamasse, a política no Brasil virou monocrática, unipessoal, absoluta, unívoca, una e indivisível. Ou, melhor dizendo, irrevogável.

Surfando há meses na crista de uma popularidade que não baixa dos 70%, Lula começa a descolar do chão da realidade. A semidivindade sugere os semiditadores que, na sua aguda onisciência, reinam acima do bem e do mal. Principalmente acima de partidos e parlamentos. Assim, por que perder tempo com políticos, sempre exigentes, e casas legislativas, sempre morosas? Por que não medidas provisórias? Por que não Hugo Chávez?

O Brasil já adubou projetos superlativos e messiânicos, como os de Jânio Quadros e Fernando Collor. Ambos detestavam siglas partidárias e abominavam rituais legislativos. Tentaram decolar projetos de poder em vôos solos pairando sobre o populismo. Um durou sete meses no Planalto, o outro sobreviveu dois anos. Na cabine fechada de seus malogros personalistas, foram ejetados pela renúncia e pelo impeachment.

Lula, que não gosta de intelectuais, poderia aprender um pouco com um fundador do PT, o sociólogo Francisco de Oliveira, aliás rompido com a legenda desde 2003. Diz Oliveira: "O PT está sendo despedaçado pelo presidente Lula, que ficou maior que o partido. Não se pode justificar o que sempre foi injustificável dentro do PT, que é apoiar o Sarney. Este governo tem façanhas sociais, mas se transformou numa regressão política".

O Brasil tenta engolir a idéia de que Dilma Roussef é a mãe do PAC, o principal palanque eleitoral de 2010. Mas desde já o país se dá conta de que Lula é o pai da crise que convulsiona o Senado e desarranja o PT. Não se sabe ainda o que este estranho casal vai gerar de positivo para a política brasileira, nos próximos meses. A sorte da mãe, como a de todos os seus filhotes, está nas mãos do pai da crise. A vontade de Lula, até agora, parece irrevogável.

Ponham seus bigodes de molho!

 

* Luiz Cláudio Cunha é jornalista